quarta-feira, 9 de maio de 2012
domingo, 6 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
Como é que se esquece alguém que se ama? - Miguel Esteves Cardoso
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'
segunda-feira, 23 de abril de 2012
TAC - susto de morte
Quando cheguei da maldita Assembleia Geral do Infantário, encontrei a minha princesa completamente prostrada, sem forças, a querer dormir. Tinha estado a vomitar e tinha caído da cama. Na minha presença vomitou mais três vezes. Todos os sintomas apontavam para traumatismo craniano. Telefonei para a saúde 24, só mesmo para confirmar que não a podia deixar dormir e, para mal dos meus pecados (e confirmação do que digo sempre), não tinha aqui o carro com as cadeiras. Tive que mandar o pai vir a correr do estádio da luz e aquela meia hora foi torturante.
Fomos para o hospital.
Quatro piscas.
Sinais de luzes.
Demorámos uns cinco minutos a chegar.
19h40.
Inscrição.
Alerta para o fax da saúde 24.
Em dois minutos foi chamada.
Vomitou bílis na triagem, após a consulta a média considerou que era melhor fazer uma TAC, ou seja, a coisa era séria (sim, já é a segunda vez que vou para o hospital com ela por suspeita de traumatismo craniano), e desde o início senti que, desta vez, a situação era mais grave.
Pelas características deste exame ela teve que ser sedada. Estupidamente, tentaram a sedação via oral, estupidamente, porque em poucos minutos ela vomitou tudo. Ainda tentámos fazer o exame sem sedação, o que se revelou impossível, porque por mais sonolenta que ela estivesse, após os quilómetros que fizemos desde o consultório até à sala do exame, e depois dela ver aquele aparato todo, ninguém a fazia parar. Voltámos a percorrer os quilómetros para as urgências.
Esperámos.
Ela cheia de sede e eu sem lhe poder dar água.
Desesperámos.
Ela sedenta.
Nova decisão - sedação via nasal.
Alertei a médica de que o melhor seria irmos para o local do exame antes de dar a sedação, porque o caminho até lá só a fazia acordar. Mais meia hora de reflexão, até que a médica me disse que íamos fazer como eu tinha dito e que desta vez e S. iria deitada na maca. Quando lá chegou estava quase a dormir. Sedá-mo-la. Daí a poucos minutos, olhei para a minha filha e vi, numa criança de dois anos e meio, um sorriso de alguém completamente pedrado. Mesmo assim, sabia que, seria necessário ela adormecer, caso contrário, assim que ela visse a máquina do exame, o pranto iria recomeçar.
Ela nunca adormeceu.
Fez-se o exame.
Ela mexeu-se.
Repetição.
Fim do exame.
Caras pouco convictas da fiabilidade da TAC realizada.
Voltámos ao ponto de partida.
Esperámos pelo resultado do exame.
Desesperámos pelo resultado do exame.
Ela sedenta e faminta.
Começaram os gritos, choro, "trepadora" a implorar água.
Sinal verde para a água, mas apenas uma colher de 5 em 5 minutos.
Ainda foi pior.
Ela sabia que eu, afinal, até tinha água e que não lhe estava a permitir que bebesse.
Médica-chefe veio ver o que se passava. Pediu-me para ir um pouco para a sala de espera, para ver se ela se acalmava (não se esqueceu de lembrar que existiam ali outros meninos que precisavam de descansar e que ela os estava a perturbar. Eu sabia disso, eu percebia isso, mas eu também já percebi que ninguém cala a S. quando ela está neste ponto).
Saímos.
Voltámos.
Saímos.
Voltámos.
O resultado tinha chegado. Aparentemente não tinha sido detetado traumatismo, embora algumas imagens da TAC não estivessem percetíveis. Foi-me dado um documento com orientações para os casos de traumatismos cranianos e o alerta para se alguma coisa acontecesse, ir imediatamente para lá.
Só acalmou, para voltar a ficar perturbada, quando chegámos ao carro e começou a perguntar pela irmã. "A I.?" disse ela inúmeras vezes. Expliquei-lhe que a "mana" estava em casa e que quando chegássemos ela ir-lhe-ia dar o beijinho de boa noite.
23h50
Chegámos a casa. Ela queria comer e beber água. Dei-lhe alguma coisa, mas pouco.
Dormiu na nossa cama.
Hoje passou por fases.
Houve uma altura (à hora do almoço) que estive quase para ir novamente para o hospital, mas respirei fundo, e acreditei que aquela semi-prostração seria ainda um resquício do dia anterior. Depois as coisas normalizaram.
Amanhã ainda é dia de vigilância.
sábado, 21 de abril de 2012
Assembleia geral
Estou com "os nervos em franja".
Lá vou eu outra vez ser a "estúpida-de-serviço".
terça-feira, 10 de abril de 2012
Cuecas - II
Ontem no infantário foram sempre à sanita sem acidentes de percurso!
IUPI!
sábado, 7 de abril de 2012
Verdade II
Eugénio de Andrade
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.Adeus.