quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Consulta dos 3 anos

Relatório:
I. - peso - 15,5kg; altura - 1 metro; percentis 90.
S. - peso - 15kg; altura - 96 cm; percentis 65.

Notas:
A I. deveria ter uma consulta de terapia da fala, a fim de despistar alguns erros recorrentes que comete.
A S. deveria ter uma consulta de psicologia, já que a sua impulsividade/irritabilidade deve ser regulada, mesmo por que pode ser um reflexo de baixa autoestima.

Observações de mãe:
Quanto aos percentis, nada a declarar, faz-se o que se pode.
No que concerne às consultas de especialidade, não me surpreendem. Há uns tempos que ando a dizer que a I. devia ter terapia da fala, pois a inexistência fonética do [k] e a substituição (por vezes quase impercetível) do [g] pelo [d] sempre me preocuparam. No que diz respeito à S., também sempre considerei que os níveis de concentração são baixos e que a frustração face à dificuldade de realizar a tarefa (ou mesmo a incapacidade de realização) bem como as birras de irritabilidade sucessivas, que lhe causam uma baixa autoestima, são prognóstico futuro de uma das novas "doenças-em-voga". Naturalmente, este é/deve ser uma dos problemas típicos dos gémeos - a competição e a frustração por ver o outro conseguir fazer algo e ser elogiado por isso, têm impactos que podem ser devastadores.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Hoje

Quando éramos pequenos, o nosso dia de aniversário era especial. Andávamos 364 dias à espera daquele dia e quando ele chegava, a alegria contagiava-nos, fazíamos coisas diferentes, vestíamos uma roupinha nova, ninguém nos podia chatear, enfim, era como se naquele dia fossemos obrigados a ser felizes.
Com o tempo desobrigamo-nos a ser felizes neste dia e os 365 dias passam a ser iguais. Sim, os 365 dias, porque também as outras datas em que obrigatoriamente estaríamos felizes, acabam por ter o mesmo destino que o dia do nosso aniversário.
Hoje, relembro, essencialmente, aquele período, supostamente, inocente em que nos juntávamos lá em casa e fazíamos do quarto uma discoteca com slows incluídos. Lembro-me de o pôr debaixo do braço e dançar muito agarradinha a ele. Era o meu primeiro amor e este dia marcava sempre o recomeço ou a consumação do nosso namoro. Depois existiam os bolos, as sandes, os sumos, o champanhe aberto por nós, mas bebido apenas pelos adultos.
Esse tempo ficou lá atrás.
Agora obrigamo-nos a ter um jantar fora ou melhor, mas mais pelos outros do que por nós e somente para que o dia não seja mesmo igual a todos os outros. Se antes queríamos ter mais um ano e alegravamo-nos por isso, hoje irrita-nos o facto de termos mais um.

Afinal, esta fase adulta-pré-velhice incomoda.









Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Desculpem

Sinto que estou fora de mim, não consigo controlar a voz, não tenho paciência e vocês são apenas crianças, talvez bebés ainda.

Nunca duvidem que vos amo.

Perdoem-me.

Às vezes acho que não vos mereço.

Estarei louca?

Colocar os telemóveis dentro do frigorífico e depois andar meia hora à procura deles é sinal de loucura, não?

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Bati

Ainda não tinha acontecido com ela, com ele, o I., já tinha acontecido, há alguns anos, algumas vezes, mas com ela nunca...

Hoje, inexplicavelmente, bati com a U. Repito, inexplicavelmente.

O outro carro estava estacionado e eu queria estacionar, não sei como fiz (virei demasiado o volante, está visto), de repente só ouço o barulho do carro a bater/roçar no outro que estava tão sossegado e sem fazer mal a ninguém.

Como sei escolher muito bem, o feliz contemplado foi nada mais nada menos que uma carrinha mercedes. Não podia fazer por menos. Agora toca a pagar um pára-choques e um guarda-lamas.

A U. não ficou mal, aliás pouco se nota a batida. É uma mulher forte. Por algum motivo lhe atribuí este nome.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A educadora

Acredito q.b. nas primeiras impressões e para já acho a educadora das feijocas muito nervosa, tensa, insegura e reativa. Também sei que este início de ano com crianças tão pequenas e com falta de pessoal está na base destas primeiras impressões.


Hoje foi o primeiro dia em que consegui ir levá-las às 9h e por isso foram diretamente para a sala com a educadora, sem passar na "casa-da-partida" - CAF. Não volto a fazer isto nos próximos tempos. Foi horrível. Não consegui fazer o nosso ritual - beijinho, abracinho, adeus à porta -, a educadora parecia louca a colocar-se em frente à porta com as pernas e braços abertos para impedir a saída dos meninos que gritavam e choravam a plenos pulmões, e eu fiquei a vê-las através do vidro a chorarem por não termos feito o que é costume, ouvindo, claramente, a S. a gritar "beijinho"! Foi a primeira vez em 3 anos que elas ficaram a chorar e não quero repetir a dose.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

E amanhã...


... começa tudo outra vez!