sábado, 24 de novembro de 2012

Andar à chuva


Lembro-me de ser miúda e depois de um dia de chuva pedir à minha mãe para calçar os botins porque queria ir chapinhar nas poças de água lá da praceta.
Lembro-me de ela me deixar uma vez ou outra.
Lembro-me de estar sozinha naquele largo imenso (na altura parecia imenso) e andar de um lado para o outro e saltar e ficar toda salpicada.
Lembro-me de ver pessoas a passar e a olhar para mim... uns com um sorriso, como se quisessem estar a fazer o mesmo, outros com ar de quem considerava a mãe daquela criança louca por deixá-la fazer aquilo.

Hoje, estava a chover.
As minhas feijocas andavam doidas por calçar os botins e usar o chapéu de chuva.
Decidi sair com elas, aqui mesmo na rua, para podermos estrear os ditos botins e caminhar com o chapéu de chuva aberto.
Deliraram, claro!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sensibilidade para as coisas belas da natureza



Depois de ontem termos ficado as três embevecidas a ouvir o chilrear de um passarinho, hoje a minha S. olhou para o céu e exclamou:
- Mãeeeee, olha o céu tão bonito... rosa!

Fiquei babada pela sensibilidade que ela demonstrou!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Hoje faria 90 anos - José Saramago, o Grande!

As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates, o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem tão fluidas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz-surpresa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.

José Saramago, Crónica publicada no livro Deste Mundo e do Outro

Homenagem ao Mestre

Hoje, o meu Mestre recebeu uma homenagem. Fui vê-lo porque o admiro, porque ele foi/é o meu Mestre.


Às vezes parece que continuo a ser um "cachorrinho" sedento da sua festa.


Sinto-me sempre invisível.


Falta-me/Faltou-me, sempre, "um golpe de asa"*.







* Mário de Sá Carneiro, "Quase"

domingo, 11 de novembro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Está aberta a época das doenças

A doença instalou-se por aqui, já estávamos com saudades disto, não é? Já durava há muito tempo o estado saudável por estas bandas, certo? Portanto, cá estamos.

Primeiro começou com uma amigdalite na S. que evoluiu para uma estomatite aftosa na I (diagnosticada ontem) e até eu estou, com toda a certeza, com amigdalite.

Problemas - a I. recusa-se a comer seja o que for, demoramos horas para que ela beba o líquido mais simples e tome os medicamentos, o que a pode levar a ficar desidratada e portanto ter que ser internada no hospital.

Têm sido dias de luta, sofrimento, dor e lágrimas.

Ontem a I. dizia-me "Já não sou tua amiga!", tudo porque depois de uma hora a tentar que ela tomasse o medicamento tive que a agarrar e forçá-la a fazê-lo (a própria pediatra me aconselhou a agir desta maneira).

Ai!


Sim, a febre continua a ter aquele efeito avassalador em mim, logo, ando aqui com dores, calafrios, mal me consigo ter de pé, mas para a frente é que é caminho e as mulheres vão sempre buscar forças onde elas não existem. Claro, quando estamos sozinhas desabamos, mas também é nesses momentos que ouvimos palavras amigas que nos confortam o coração. Obrigada S.R.A. e C.C. pelas palavras de ontem.

sábado, 3 de novembro de 2012

Já me tinha esquecido

Há quanto tempo é que elas não tinham febre nem nada do género? Já me tinha esquecido de como era.
A febre voltou a bater à porta cá de casa. A minha S. desde 6ªfeira que tem febre. Ontem foi uma febre contínua, mas hoje teve de manhã e agora à noite.
Não sei porquê, mas cheira-me a amigdalite.
Amanhã, lá terei que ir ao hospital!