segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Palavras dos outros que encaixam

Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

domingo, 2 de dezembro de 2012






























Há momentos em que temos perfeita consciência de que o fim é inevitável.




























quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Coisas de gémeos

Isto de "o que uma faz a outra também faz" pode chegar aos extremos e ao ridículo da situação!
Na noite passada, a I. fez chichi na cama por volta da meia-noite e a S. repetiu a proeza às seis da manhã!


Ai!!!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Quando eu morrer

Quando eu morrer, não quero que existam apenas palavras insípidas ditas por um padre que nunca me viu ou conheceu.
Hei de escrever um texto para ser lido nessa altura, de preferência será lido por alguém que saiba ler um texto com sentido.
Tenho que escrever este texto rapidamente (nunca se sabe o que nos pode acontecer daqui a cinco minutos) e enquanto não morrer acrescentarei ou modificarei aquilo que for achando necessário.

O mote poderá sempre ser este poema

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

domingo, 25 de novembro de 2012

Mais uma vez, falhei...

Era um exemplo de coragem, de querer, de vida, de confiança, de sonho, de força, de convição. Sempre foi em frente, cometeu loucuras por amor e por acreditar na ilusão de ser amada.
Fez felizes muitos dos que estavam à sua volta e ultrapassou o sofrimento que a muitos deitaria por terra. Talvez por isso tivesse tido sempre essa força e vontade de viver de que estes últimos tempos não foram exemplo.
Sensivelmente de há um ano para cá, o chão foi-lhe retirado e viu-se imóvel. De há um ano para cá que tinha vindo a morrer aos poucos. Hoje foi a sentença final.
Há meses que não a via. Quanto mais tempo passava, menos vontade tinha de o fazer, porque cada vez passava mais tempo e eu sentia-me cada vez pior nessa ausência, porque sabia que este dia estava próximo e queria reter a sua melhor imagem, porque ir significaria a total consciência da despedida...
Falhei.
A última vez que a vi, foi no hospital completamente inconsciente, disse-lhe que acreditava, que ela ia sair dali, que era um exemplo de tenacidade para todos nós, mas saí de lá querendo esquecer o que vira. Aquela não era ela, o olhar vago, distante, sem palavras, gemidos de dor.
Falhei.
Hoje foi a sentença final.
Agora terei que ter tempo para lá ir, mas recusar-me-ei a olhá-la. Para mim, não é esta, nunca será esta, será sempre aquela senhora distinta, bem vestida, altiva, alegre, com força e vontade de sugar todo o tutano da vida.
Nunca me esquecerei de si e de todas as loucuras que cometemos juntas.

Até um dia, madrinha!

sábado, 24 de novembro de 2012

Andar à chuva


Lembro-me de ser miúda e depois de um dia de chuva pedir à minha mãe para calçar os botins porque queria ir chapinhar nas poças de água lá da praceta.
Lembro-me de ela me deixar uma vez ou outra.
Lembro-me de estar sozinha naquele largo imenso (na altura parecia imenso) e andar de um lado para o outro e saltar e ficar toda salpicada.
Lembro-me de ver pessoas a passar e a olhar para mim... uns com um sorriso, como se quisessem estar a fazer o mesmo, outros com ar de quem considerava a mãe daquela criança louca por deixá-la fazer aquilo.

Hoje, estava a chover.
As minhas feijocas andavam doidas por calçar os botins e usar o chapéu de chuva.
Decidi sair com elas, aqui mesmo na rua, para podermos estrear os ditos botins e caminhar com o chapéu de chuva aberto.
Deliraram, claro!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sensibilidade para as coisas belas da natureza



Depois de ontem termos ficado as três embevecidas a ouvir o chilrear de um passarinho, hoje a minha S. olhou para o céu e exclamou:
- Mãeeeee, olha o céu tão bonito... rosa!

Fiquei babada pela sensibilidade que ela demonstrou!